Todo livro ou curso de Biologia que se preza se inicia com uma discussão sobre o que é Biologia. A resposta é sempre a mesma: biologia é o estudo da vida. E segue a explicação sobre a origem grega do termo: bio = vida; logos = estudo. E passamos então alguns bimestres ou semestres de nossas vidas estudando a própria vida
E que vida é essa que estudamos? Ou melhor:
o que é a vida?
Essa pergunta nenhum livro ou professor se
arrisca a responder. O que se pode dizer é que nos limites desta ciência chamada
biologia, a vida é estudada a partir dos seres vivos. Isto é, entendendo sua
origem e evolução, analisando suas relações com o meio ambiente e com os outros
seres vivos, classificando-os e agrupando-os conforme suas
características.
E como estamos falando da ciência biologia,
todas essas coisas são feitas por meio de métodos científicos, relacionando
causas e efeitos. Isso é importante dizer porque muito antes de existir essa
ciência chamada biologia, os seres humanos já estudavam a vida, cada um ao seu
modo. Os egípcios deram grande contribuição à medicina ao utilizar a técnica de
embalsamamento de seus mortos durante séculos, o que significou acumular
conhecimento sobre o corpo humano. Além de construírem pirâmides, os egípcios
chegaram a fazer cirurgia craniana. O grego Hipócrates (c. 460-377 a.C.),
milênios atrás, já defendia que as doenças eram causadas por causas naturais, o
que poderia soar muito estranho num tempo em se creditava a deuses e demônios
todas as enfermidades. Mas todo esse conhecimento dos antigos era adquirido de
forma empírica e não utilizando métodos científicos.
E o que nós estamos fazendo ao estudar
biologia? Estudando o “estudo da vida”?
Na prática, para o estudante comum, é isso
mesmo. Estamos estudando o conhecimento construído com muito suor pelos
cientistas que fizeram e fazem biologia ao longo de séculos. O estudante que
resolver fazer ciência um dia, passará do “estudo do estudo da vida” para o
“estudo da vida” propriamente dito. E para o estudante que dá esse passo além, a
pergunta “o que é biologia” ganha um peso muito mais importante, quem sabe até
uma urgência filosófica.
Dizer que a biologia é o estudo da vida é algo
que nos parece muito agradável e de uma “meiguice” que a priori torna tudo muito
belo. Mas porque estudamos a vida? Como se estuda a vida? Que tipo de coisas
produzimos ao estudar a vida? Para estudar a vida, precisamos causar dor em
animais dentro dos laboratórios das universidades e empresas? Estudaremos a vida
para alcançar a cura de doenças ou para criar patentes que nos ajudem a obter
lucros com o dinheiro dos doentes? A invenção de armas biológicas é um legítimo
estudo da vida?
Talvez a “meiguice” a qual nos referimos venha
a se esvair quando nos damos conta de que o estudo da vida muitas vezes ao longo
da história não tenha tido objetivos tão nobres. A prática da eugenia nazista é
um exemplo concreto. Talvez o número de questões de cunho filosófico, moral e
ético que se levantam ao nos aprofundarmos um pouquinho no significado de
“estudar a vida”, explique o motivo pelo qual esse assunto ganha apenas meia
páginas nos livros de biologia de ensino médio.
No entanto, de forma alguma podemos culpar a
biologia como ciência pelos usos e abusos que o ser humano faz da mesma. Os
romanos já envenenavam rios muitos séculos atrás para matar seus inimigos e
durante a Idade Média era comum lançarem corpos apodrecidos por meio de
catapultas para além das muralhas de cidades sitiadas como forma de contaminar a
população local com doenças oriundas dos cadáveres. A engenhosidade do ser
humano para realizar destruição utilizando conhecimento sobre a vida natural não
é privilégio das gerações atuais.
Para não ficarmos só no samba triste, é bom
lembrar que alguém já disse que assim como o século XX foi o século da física, o
século XXI deverá ser o século da biologia.
Você já deve ter ouvido falar muito das
promessas acerca das pesquisas com células-tronco. Todos os dias os noticiários
têm alguma novidade do mundo da medicina. Tem gente estudando a vida pra valer.
Sem essas pessoas, epidemias como a gripe suína poderiam se tornar uma
catástrofe muito maior, como foram a peste negra e a varíola um dia.
Muitas vezes o estudante que está de olho no
vestibular não tem tempo para pensar nos aspectos ideológicos e filosóficos de
se estudar biologia, mesmo porque até hoje nenhuma banca de prova perguntou “o
que é biologia?”. Mas para aqueles que vão ingressar nas carreiras da área de
biológica (que está sempre na moda), é bom saber que depois de estudar divisão
celular, reprodução das plantas, morfologia dos artrópodes, fisiologia dos
anelídeos, taxonomia e outras coisas que o vestibular exige, o estudo da vida
ganhará um propósito que é muito particular em uma sociedade capitalista e
decisão única do indivíduo: fazer biologia para estudar a vida ou estudar a vida
para fazer dinheiro.
Fonte: http://www.qieducacao.com/2010/06/o-que-e-biologia.html

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